segunda-feira, 2 de junho de 2014

[Review] Papo & Yo




Como misturar crítica social, assuntos familiares, quebra-cabeças fantásticos em uma mesma receita?


O pessoal da Minority fez isso de uma forma excepcional. Papo & Yo é um jogo como uma proposta diferente, em que lhe coloca em mundo conhecido por muitos mas experimentado por poucos.

Ficha técnica



Gênero: Aventura/Puzzle
Dev: Minority Media Inc. 
Publisher: Minority Media
Lançamento: Abril de 2013
Semelhante a: Nada
Pontos positivos
+ Ambientação
+ Carga emocional
Pontos negativos
- Muito curto

História

O jogo possui duas histórias. Uma delas é uma história que aparentemente veio de um livro infantil qualquer, e que é a história que é contada na capa do jogo:

"O melhor amigo de Quico, Monster, é um enorme animal de dentes aguçados mas isso não impede que Quico brinque com ele. Dito isto, Monster tem um problema bastante perigoso: é viciado em sapos venenosos. Mal vê um a saltar por perto, apanha-o de imediato e entra num violento acesso de fúria causado pelo sapo durante o qual ninguém, nem mesmo o Quico, está a salvo. Mesmo assim, Quico adora o seu Monster e quer salvá-lo. (...) Os jogadores terão de aprender a usar em seu proveito as emoções de Monster, tanto as boas como as más, se quiserem chegar ao fim da sua demanda e encontrar uma cura para o assustador amigo!"

Entretanto, o enredo contado acima é apenas uma grande metáfora. O seu significado real é baseado na história pessoal do diretor criativo do jogo, Vander Caballero, onde discute-se assuntos como violência familiar e alcoolismo.


Vander sofreu muito com seu pai alcoólatra na sua infância, e isso é claramente mostrado nas cenas iniciais do jogo e no seu final surpreendente. Deste modo, podemos até mesmo encará-lo como um jogo autobiográfico.

Mecânica


A sinergia entre o funcionamento do jogo com sua ambientação é memorável. A primeira vista, temos uma jogo de aventura em terceira pessoa padrão. Movemos o personagem para lá e para cá normalmente.
Porém aos poucos, casas, barracos, canos e muros que aparentemente são apenas parte da paisagem, se transformam em incríveis peças de um grande quebra cabeça. Barracos podem ser movidos e empilhados. Grandes canos podem ser girados. Uma vizinhança toda pode se mover, cada qual com seu próprio interruptor ou engrenagem. Abrindo assim caminho para a passagem do nosso personagem.




A cada nível, elementos novos são adicionados. Primeiramente, temos a introdução do "brinquedo" Lula, sim o nome é esse exatamente por causa do nosso ex-presidente. Lula ajuda Quico em tarefas como acionar certos interruptores e também confere a habilidade de dar grandes saltos.

Lula nas costas de Quico observando Monster...


Posteriormente, nos é apresentado o grandioso "Monster". Aparentemente inofensivo, Monster é movido por emoções, e devemos nos fazer valer dessas mesmas emoções para que com ajuda dele atinjamos os nossos objetivos. Emoções essas que a princípio parecem bobas como fome por sapos, são uma das belezas do jogo. No mundo de Quico existem sapos "venenosos", irresistíveis, mas quando são comidos transformam Monster em um animal enfurecido que destrói tudo e todos à volta. Este animal enfurecido nada mais é que a metáfora para o alcoólatra em mais uma de suas crises por excesso de bebida.

Monster totalmente transformado após se alimentar de algo "proibido"

Essas adições de elementos durante a jornada alteram bastante a mecânica do jogo, tornando-o cada vez mais interessante.

Ambientação


Nunca uma favela fora tão bonita, interessante e surreal. Inspirada em alguma comunidade pobre próxima a você, o jogo o coloca em um mundo de construções caóticas porém belas. Os barracos ganham vida dentro de diversos quebra-cabeças.


A atenção aos detalhes é impressionante. A começar pelas vestimentas. Durante sua jornada, Quico, que aparece a princípio de uniforme escolar, aos poucos muda seu visual, as vezes aparecendo sem camisa e descalço, outras vezes com apenas um tênis no pé, numa forma de mostrar a pobreza da realidade em que vive. Nesta hora é interessante notar o som dos passos ao caminhar, onde ouve-se perfeitamente o som do pé descalço e o som do calçado encostando no chão.



A trilha sonora, feita na medida certa, conecta perfeitamente ao ambiente e as emoções envolvidas no jogo. Tendo com o base o samba, ritmo característico do Brasil, mistura a alegria do ritmo em certos pontos com melancólicos sons típicos da America do Sul. No geral o clima de samba melancólico acompanha toda a jornada, criando uma trilha extremamente bela.
A atenção aos elementos sonoros tanto na trilha como nos efeitos é algo notório. Cuícas, além de dar a tropicalização ao ambiente também servem como o som padrão de comunicação de Lula. Além disso, as falas de Quico e de sua amiga, que aparece de vez em quando, não são de um idioma específico e sim, de uma mistura de dialetos formando um som único.

Opinião


Infelizmente a boa jogatina termina rápido. Quatro horas são mais que suficientes para terminá-lo, mas estas quatro horas são muito bem aproveitadas. O jogo todo é maravilhoso. Os quebra cabeças na maioria das vezes são bem fáceis, porém são muito trabalhados e extremamente criativos. As vezes espera-se um pouco mais de desafio e dificuldade, porém não dá pra negar o polimento feito pela desenvolvedora em cada um deles.




A carga emocional que o jogo contém é sua marca mais forte. Impossível não parar em um momento de reflexão e pensar sobre os fatos discutidos, que infelizmente pertencem ao dia a dia de tantos pelo mundo à fora. Em seu final, a forma como é exposto cada problema ocasionado pela abuso de bebida e violência é um tapa na cara de muitos pais.

Mais do que jogado, Papo & Yo deve ser sentido e refletido. É uma obra diferente em cada um de seus aspectos. Desde os quebra-cabeças que se utilizam de casas e barracos de forma excepcional, até o jogo de emoções, em que até mesmo a raiva deve ser manipulada ao seu favor.

Humble Bundles da vidas proporcionam a oportunidade de se experimentar jogos não tão conhecidos como esse. Por essas e outras dificilmente perco algum, sob o risco de perder pérolas escondidas como Papo & Yo.

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