sábado, 13 de setembro de 2014

[Review] Robocop (2014)

O policial do futuro é hiperativo e politicamente correto

O remake de Robocop (EUA, 2014) é um tópico polêmico. Quem delirou com o original, de 1987, pode argumentar que o filme não precisava de um reboot, ou pelo menos não no formato que foi feito. Quem não viveu aquela época pode argumentar "o que é um RoboCop?". E então? O novo filme vale ser visto? Confira a seguir:

Ficha técnica


Título Original: RoboCop
País: EUA
Ano: 2014
Diretor: José Padilha
Roteirista: Joshua Zetumer

Elenco: Joel Kinnaman, Michael Keaton, Samuel L. Jackson
Pontos positivos
Interpretação de Saumel L. Jackson
Apelo à nostalgia
Pontos negativos
- Certinho demais



Enredo


A história se passa na cidade de Detroit em 2028. Uma mega corporação de armamentos, a OmniCorp fornece robôs autônomos para "manter a paz" em diversos países em conflito. No entanto, a companhia encontra uma dificuldade em emplacar os robôs nos EUA, por conta de uma grande resistência da população a autônomos armados. Daí a idéia brilhante da OmniCorp de construir um híbrido de humano e robô para ganhar a simpatia da população e do senado.

Convenientemente, no mesmo período, o policial Alex Murphy (Joel Kinnaman) sofre um atentado no decorrer de suas investigações de atividades criminosas. Murphy é hospitalizado em estado gravíssimo e sua família recebe uma proposta indecorosa da OmniCorp...


O que se segue é a história da criação de RoboCop e de seus conflitos: como ele se prova digno de operar nas ruas, como ele encara a dualidade entre homem e máquina e como ele pode se integrar à sociedade.

Produção

A direção de José Padilha (Tropa de Elite) e a presença de atores de alto escalão denunciam uma produção milionária de Hollywood. RoboCop esbanja explosões e efeitos especiais. E tiros, muitos tiros. Há um cuidado visível em alguns pontos chave: a armadura do personagem principal e sua moto, os cenários do programa de Pat Novak (Samuel L. Jackson), o novo visual dos ED-209. Em particular, os ED-209 têm mais cara de máquina militar, que é um forte contraponto para o robô caricato do filme original. Por outro lado, o filme explora pouco a noção de "futuro" nos demais aspectos do mundo. O filme original, mesmo com uma fração do orçamento, esmiuçou com mais habilidade os trejeitos que definem a nova época.


As atuações são muito competentes, o que é esperado de um elenco desse gabarito. Há alguns momentos de destaque para o protagonista, no tocante à sua dualidade homem-máquina.

Há uma única menção à trilha sonora original, emblemática, no novo título. Feita essa menção, todo o resto é material novo, que funciona mas não é particularmente memorável.

Opinião


Há duas possibilidades muito distintas para se emitir uma opinião sobre o remake de RoboCop.

1) Para quem sente nostalgia pelo filme original
RoboCop, de 1987, foi lançado em uma época muito distinta. A movimentação do ED-209, feita em stop-motion era um enorme feito tecnológico por si só. Os conceitos do filme (futuro distópico, cibernética...) tinham cara de novidade, e foram exploradas com uma qualidade visual grandiosa para a época. Os bandidos eram detestáveis e morriam em meio a um banho de sangue.


Tendo isso em mente, o título de 2014 é "um RoboCop para toda a família". As partes envolvidas são mais "preto no branco", os bandidos não têm muita identidade e os tiros não jorram sangue. Estão ausentes até mesmo as referências memoráveis sobre o futuro, como a propaganda do "Sunblock 5000", do RoboCop de 87, que era o protetor solar para um mundo sem camada de ozônio. Esse tipo de contextualização, que era frequênte na obra que o inspirou, é praticamente ausente no remake. O que resulta é algo muito menos carismático e vibrante, que se passa numa realidade politicamente correta, muito mais próxima da nossa do que de um futuro distópico.

Murphy, no filme de 1987

Sem sombra de dúvida, a maior ofensa ao senso de nostalgia vem justamente do design do personagem principal. O RoboCop original era uma máquina lenta e muito pesada. Sua movimentação denunciava esses aspectos, e o ator parecia de fato mover-se por servomotores. O capacete era removido retirando-se parafusos, e a cabeça por debaixo dele tinha pedaços de pele repuxados sobre os circuitos. O novo personagem, por contraste, é um tipo de Power Ranger. Ele se move com agilidade, dá piruetas, o visor do capacete se recolhe "com o poder do pensamento". E o rosto por debaixo dele parece repousar confortavelmente sob uma touca cibernética. É essa falta de visceralidade que ofende o espectador que já tem uma conexão emocional com o RoboCop de 87, evidenciando que os estúdios jogaram com um investimento mais garantido e politicamente correto.

2) Para quem encara o novo filme por seus próprios méritos
RoboCop é uma variação da fórmula do roteiro de origem de super-herói. Há bastante ação, explosões e tiros. O enredo é interessante, mas nada de muito marcante. Os efeitos especiais são bem feitos e sem muito exagero. É um filme bom, mas que não atende a grandes expectativas.


... e então?
Esta é uma obra que tem a difícil missão de atender a dois públicos muito distintos. O resultado é um conteúdo adaptado ao formato contemporâneo, com diversas referências ao material original. O que se verifica na prática é que nenhum dos dois lados é atendido por completo.

Sem sombra de dúvida, o ponto de maior destaque é o programa de Pat Novak. O personagem é um tipo de "Datena" da Detroit de 2028. Em seu discurso inconformista, que protege os interesses da OmniCorp e a presença de suas máquinas de guerra em territórios de conflito, há uma sutileza maestral. Para o espectador (talvez norte-americano) que concorda com o comportamento imperialista e intervencionista atribuído ao governo dos EUA, há uma série de justificativas bastante plausíveis, tornadas mais vivas pela sensacional interpretação de Samuel L. Jackson. E para aqueles de nós que consideram esse comportamento um "bullying internacional", a natureza caricata do personagem e do programa faz seu discurso virar comédia, que oculta justamente a crítica a essas intervenções. Trata-se de uma jogada de mestre: por um lado revela uma sinergia sensacional entre roteiro, interpretação e produção. Por outro, dá ao estúdio mais uma oportunidade de fazer o que fez de melhor durante todo o tempo: jogar seguro para todos os lados.


Quer você tenha um apreço pelo filme original, esteja apenas curioso para saber "como ficou" a nova roupagem ou nunca nem passou perto, "RoboCop de 2014" merece ser assistido. É uma mistura interessante de drama, policial, ficção científica e ação. Mas fica o recado: não crie grandes expectativas.

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