sexta-feira, 26 de setembro de 2014

[Review] Trilogia Mass Effect - Vale a pena?


Um épico de proporções galácticas

Me aventurei a jogar a trilogia Mass Effect depois de todo mundo. Apesar de ter me decepcionado um tanto com o jogo original, de 2007, o interesse por ficção científica fez minha atenção voltar para a obra várias vezes, sempre ficando no "quase comprei, quase joguei". Pois bem, dezenas de horas depois, qual é o veredito?


Em agosto deste ano, encontrei a trilogia em promoção no Origin por 50 Reais (incluindo alguns DLC's) e achei o preço bastante atrativo. Decidi que era hora de encarar minha procrastinação de frente, e joguei de forma determinada como não fazia desde Final Fantasy VII, do Playstation 1 (107 horas de FF7, se você estiver se perguntando). Esta é uma "review tripla", um pouco extensa. Para quem quer uma versão TL;DR, vale ler apenas os parágrafos finais.

História

A trilogia Mass Effect é definida por alguns aspectos comuns entre os jogos, a saber:

A história se passa no final do século 22, num período em que a humanidade convive com diversas espécies alienígenas, que viajam entre os sistemas solares por meio de Mass Relays. Essas imensas estruturas foram descobertas pelas diversas espécies, e sua tecnologia é envolta em mistério. O enredo gira em torno de criaturas muito poderosas, chamadas Reapers, que aparecem na galáxia a cada 50.000 anos para extinguir toda vida orgânica. O comandante Shepard (que pode ser um homem ou uma mulher, ao gosto do freguês) se vê envolvido até o pescoço e participa de todos os eventos críticos da maior crise de todos os tempos.


Abundam as inspirações vindas de clássicos eternos da ficção científica, como Star Trek, Star Wars, Battlestar Galactica e Dune. Particularmente no primeiro jogo, o efeito de granulado de filme remete aos seriados de ficção dos anos 50, 60 e 70.

Mecânica

Mass Effect é, antes de mais nada, sinônimo de RPG. Neste ponto, se beneficia de toda a experiência da canadense BioWare, famosa por clássicos como Baldur's Gate e Star Wars - Knights of the Old Republic. O jogador decide a evolução dos atributos do personagem, e as opções de diálogo são bem variadas. Há diversas situações em que Shepard pode optar por reações benevolentes e justas, ou explosivas e rudes. Isso modifica seu comportamento, bem como o comportamento das pessoas que o cercam, em situações futuras. O jogo abre incontáveis opções em que se pode influenciar o destino dos personagens. Os personagens podem vivenciar eventos únicos, e até morrer, e a história se adaptará a isso.



De destaque especial neste ponto de RPG são os romances. Shepard pode se envolver com outros personagens, estabelecendo relações duradouras, criando intrigas, trocando de parceiro de um jogo para outro. Ao longo dos anos, a trilogia foi criticada por cenas um pouco mais sensuais, que vão desde relacionamentos heterossexuais ou homossexuais, até inter-espécies.

Na hora do combate, Mass Effect adota a mecânica de "cover based combat", ou combate baseado em cobertura. Os personagens utilizam partes do cenário como cobertura e trocam tiros na maior parte do tempo. Algo como Gears of War, mas um pouco mais simplificado. Os combates são divertidos na maior parte do tempo, mas alcançam uma maturidade excepcional no terceiro jogo.

Caso haja disposição, cada jogo pode ser repetido algumas vezes, com classes de personagens e habilidades diferentes, decisões diversas e diferentes interpretações de "quem é o Capitão Shepard desta vez". Isso garante que, até um certo limite, cada jogador vivenciou uma experiência bastante pessoal. Certamente, há jogos capazes de explorar melhor este ponto (como Fallout 3 por exemplo), mas vale o mérito para a série.

Outra observação importante: é possível importar o jogo salvo de um título para o próximo. Assim aproveita-se a aparência do personagem, todas as decisões tomadas, alguns itens, entre outros pontos. Isso contribui muito para fazer a experiência parecer contínua.


Ambientação

A noção de "futuro" da trilogia é bem desenvolvida na maioria dos pontos. Os ambientes se alternam entre naves espaciais, estações espaciais, localidades militares e civis em planetas. Cada jogo aproveitou bem o que havia de tecnologia em sua época.


A trilha sonora é muito boa, e também aponta para alguns clichés da ficção científica. O uso de sintetizadores é constante, mas também há trilhas orquestradas muito bem feitas. Estão disponíveis no Rdio e no Spotify, e são boas de se escutar mesmo fora do jogo.

A atuação das vozes é um ponto alto, principalmente em Mass Effect 2 e 3. É evidente que houve um esforço monumental, com inúmeras horas de gravação. Há diversos pequenos detalhes, como interjeições durante os combates, ou frases que são ditas apenas em conjunções muito específicas de decisões durante o jogo.

Opinião

Seguem alguns comentários particulares a cada jogo da trilogia:

Mass Effect

Lançamento: 2007
Tempo de jogo: 17 horas bem apressadas


Tive a oportunidade de jogar um pouco do primeiro Mass Effect na época de seu lançamento. A impressão foi bastante ruim. O combate ficou repetitivo rapidamente, os trechos de exploração com o tanque Mako eram horríveis. Quando cheguei em Citadel pela primeira vez, fiquei paralisado diante da enorme variedade de opções.

Quando comprei a trilogia, considerei seriamente pular o primeiro jogo e emendar direto no segundo. No entanto, continuei intrigado pela história. Tanto a crítica quanto meus amigos falaram muito bem da história e do contexto do primeiro Mass Effect. Minha opção foi encarar o jogo da forma mais rápida possível, com pouca atenção a missões secundárias e detalhes.

Desta vez, minha impressão foi melhor. De fato, a história é muito boa, mas o jogo continua sendo de 2007. São perceptíveis as limitações técnicas e de produção da época. Embora os cenários sejam interessantes, tudo é mais mecânico, as texturas são embaçadas...

Minha experiência apressada valeu a pena, mas não posso recomendar sinceramente a todos. Talvez fosse melhor pegar uma sinopse da história no youtube, ou por escrito.

Mass Effect 2

Lançamento: 2010
Tempo de jogo: 23 horas, com as missões secundárias de meus personagens favoritos


Enquanto Mass Effect faz o trabalho de apresentar o universo e seus principais aspectos, Mass Effect 2 serve para colocar o jogador por dentro daqueles aspectos que definem a crise dos Reapers. A história é mais aprofundada, a atuação é melhor, a qualidade dos gráficos é bastante superior. O grande ponto fraco, no entanto, é a falta de escala.

No Mass Effect original, as tediosas missões de exploração com o tanque Mako (ainda que tediosas) davam ao jogador uma noção de estar em um planeta, com terreno, clima, etc. Por contraste, Mass Effect 2 parece claustrofóbico. A maior parte dos cenários envolve ambientes menores e fechados. Mesmo nos cenários em que é possível enxergar longe, por exemplo por uma janela, parece que o horizonte está "logo ali". Mesmo a ambientação de Citadel é estranha, parecendo que a enorme estação do primeiro jogo se tornou um punhado de salas interconectadas.

Já um ponto bastante positivo é que, como toda a produção é melhor (atuação, enredo, etc), é possível estabelecer uma conexão mais profunda com os personagens. Há várias missões cujo objetivo é ajudar um membro da tripulação com algum problema. Essas missões servem para explorar um pouco mais a história de cada um. Pode ser que este ponto tenha me chamado a atenção justamente porque terminei o primeiro jogo às pressas. Mas de fato, quando algum personagem mais querido morre (de forma permanente, como parte da história), você sente até um pouco de luto.

Existe novamente algum tempo perdido: as tediosas missões com o tanque foram substituídas por tediosas prospecções de recursos nos planetas. Por outro lado, o combate ficou bem mais fluido, a progressão dos personagens mais simplificada, e o jogo como um todo é mais divertido.

Mass Effect 3

Lançamento: 2012
Tempo de jogo: 40 horas muito bem gastas



O terceiro título é o ponto em que minhas expectativas foram finalmente atendidas. Se não fosse a dependência tão pesada do enredo e do contexto dos jogos anteriores, seria possível jogar apenas Mass Effect 3 com muito sucesso.

O combate é divertidíssimo, e aparenta ter alcançado o formato almejado desde o começo. Tudo é um pouco mais rápido, a customização das armas funciona bem, os poderes podem ser combinados com os dos outros personagens. Esta mecânica funciona tão bem que há um modo multiplayer cooperativo dedicado apenas ao combate, e ele é excelente.

Do lado do RPG, a atuação continua excelente, e as mecânicas de diálogo permanecem basicamente as mesmas. No entanto, as decisões tomadas pelo jogador passam a afetar o universo de uma forma muito mais profunda.

O terceiro jogo todo é tomado por um profundo senso de "fim do mundo", pois trata justamente da investida final dos Reapers contra os povos da galáxia. Há pontos em que o posicionamento de Shepard pode afetar o destino de toda uma civilização, ou causar a perda do apoio de toda uma raça na batalha final.



Falando em batalha final, o final do jogo foi profundamente criticado em seu lançamento. Isso aconteceu principalmente por dois motivos: primeiro, a BioWare divulgou que o final da saga seria profundamente afetada por todas as decisões tomadas pelo jogador. O segundo ponto é que a cena que descreve os eventos após o final do jogo era bem curta. Quanto ao primeiro ponto, o que se vê na prática é que existem quatro finais diferentes, e poucas menções às decisões mais críticas. Já o segundo ponto foi remediado pelo DLC Extended Cut, que dá um pouco mais de profundidade ao destino da galáxia.

Na prática, fiquei bastante satisfeito com os finais. As cenas diferem pouco entre si, mas completam perfeitamente o desenrolar da saga. Talvez fosse mais digno aos jogadores que houvesse um final de 40 minutos, como foi em Metal Gear Solid 4, descrevendo milhares de implicações e o destino de personagens individuais. Mas o final que fiz (o mais difícil) foi surpreendente e mexeu bastante com minhas idéias. Assisti os demais no YouTube por motivos práticos, e também gostei muito.

Por fim, vale uma menção aos gráficos, que chegam ao ponto alto da série. A ambientação como um todo é muito boa, com destaque aos efeitos de luz. Logo no começo percebi que o efeito de granulado de filme, que tanto me encantou no primeiro título, havia desaparecido. Tratei de baixar um mod (link aqui) <link> que adicionava o efeito de volta. Várias das ambientações ficaram excepcionais com a adição do mod. Observei que, na internet, há muita discussão se o jogo fica melhor ou pior com o granulado. A propósito, o problema de escala que mencionei em Masse Effect 2 foi, na maior parte, resolvido.

... e então, vale a pena jogar?

Vamos lá:

  • Se você não gosta muito de RPG e longas histórias, não vale a pena não. O jogo é todo muito longo e só uns 30-40% do tempo é dedicado à ação.
  • Se você gosta de ficção científica, vale a pena sim. Mas aí você deve medir sua disponibilidade de tempo. Talvez seja melhor substituir o primeiro título (talvez até o segundo) por resumos em texto ou em vídeo, abundantes na internet. Mas se a paciência estiver boa, dá pra entrar de sola desde o começo!
  • Se você gosta dos RPG's ocidentais modernos, como Skyrim e Fallout, saiba que o senso de exploração e liberdade não é tão bem desenvolvido. A experiência é um pouco mais engessada e os pontos de decisão são bem definidos. A exploração da galáxia é sempre tratada de forma abstrata. Não é normal pousar nos planetas, explorar sua superfície e encontrar várias coisas interessantes lá.


Por fim, posso dizer que gostei muito da experiência toda, principalmente de Mass Effect 3. Talvez tivesse sido mais prático pular o primeiro jogo, mas ainda assim posso dizer que o senso de imersão é mais completo tendo jogado a obra toda. Se você está chegando tarde à festa assim como eu, pegue seu rifle, calibre seus escudos e seja bem vindo!


Postagens Relacionadas



Comentários

2 comentários:

  1. Como você pode não mencionar a maravilhosa batalha final contra Muralder Shields?
    Uma das melhores compilaçoes de contos de ação de todos os tempos.

    Tony Massaro.

    ResponderExcluir
  2. Cara, eu não conhecia essa.... Sensacional! hehehehe
    Fica a referência pra quem tropeçar por aqui:
    http://knowyourmeme.com/memes/marauder-shields

    ResponderExcluir